segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cinzas, cristal e cinzas

Naquela noite triste olhava melancolicamente à lareira já quase apagada
Aquela triste menina delicada de formas delgadas e beleza inigualada.
Lágrimas corriam em seu rosto e pequenos soluços faziam as parcas chamas dançarem
O vento frio corria adentro do recinto como fantasmas a visitarem
Sozinha estava, e repentinamente se sentia observada por sombras inimaginadas,
Ria-se para apagar o soluço e dar a si mesma força, mas o coração disparava.

E tal qual demônio de tempos sepulcrais, as sombras da fogueira parva moldava-se,
Em repentinas e grosseiras formas, de cinzas, brasas e labaredas, um gênio parecia formar-se,
À vista da pobre e indefesa menina, figura viril e amedrontante sorria um riso enregelante
De chamas nos dentes, e olhar sarcástico, de poderes que pareciam impressionantes,
Erguia uma mão de cinzas e dizia em palavras compreendidas e som ribombante a seguinte pergunta:

- Pobre donzela que chora lágrimas em vão, de imaculado coração,
não desesperai, nenhum mal maior farei além do que os fazem vossos irmãos.
- Aproximai sem medo, uma proposta única e poderosa desejo fazer-te.
Dar-lhe-ei a melhor noite de vossa vida e todos os seus desejos atender-te.
- Em troca apenas peço coisa à toa, que não me negará.
Que no auge de seu gôzo nesta noite, resista ao maior prazer.

Com as lágrimas secas e um certo receio a jovem dama respondia:
- Ó figura negra e assustadora que espreita a minha tristeza escondida
Como posso aceitar tamanha magia de criatura que parece no inferno morar?
Boas coisas não devo esperar se sua sedutora proposta pactuar.

O demônio de cinzas logo muda o rosto e uma gargalhada podia-se ouvir colocando a casa em tremor!
- Não te iludas tola garota. Sou tal qual os homens, de cinza. Me mostro a ti sem pudor.
Porque não me envergonho do que sou, cinza e chamas, e minha beleza me basta.
- Olhai pra ti pobre arremedo de vida. Alguns poderiam chamar-te casta.
Chamo-te pobre. As amarras que separam de sua liberdade não são as portas e janelas com trancas de metal
- Sua liberdade se priva em trancas de mente arcaica e caipira, criatura tal.
Mas não temei, como dito, nada pedi demais, apenas resistir à maior lascívia.
E nada mais. Nem a sua alma pedi, por que minha cara, meu desejo é que vá e viva.
- E traga uma estória a contar a essas cinzas. Esperar-te-ei à meia-noite e nenhum minuto mais.

Após dizer isso, a garota surpreendentemente decidia aceitar o pedido.
Parecia tolo, ela pensava, mas sem essa ajuda, tudo parecia perdido.
E o amor, ela raciocinava, todo mal podia combater.
Então não temia um pacto com um anjo caído fazer.
Sabia que no fim o bem há de prevalecer.

E como mágica esperada um esplendoroso vestido se fez do pó que o quarto empestava.
Portas e janelas abriam-se e ela via-se livre, e a noite maravilhosa observava.
A mágica transformava uma abóbora em carruagem e ratos em cavalos garbosos
Mas a mais poderosa mágica transformava a tímida donzela de cabelos mimosos
Em uma dama de pura sedução e olhar enfeitiçante. Tanta magia a inebriava nessa nova postura
que mal notara que sapatos de cristal calçavam-lhe os pés ao invés de suas sandálias de costura.

Em um pequeno espaço de tempo no baile que tanto almejava em pouco tempo conseguia chegar
As pessoas ao redor se espantavam com tamanha beleza e sequer pensavam em lhe parar.
Seus passos seguiam aonde duzias de casais dançavam uma bela música de tradicional bailado.
Apesar dos olhos das maiorias das donzelas em desejo olhar a um rapaz bem aparentado,
Que era príncipe diziam, e sorriso tão doce que até um certo arrepio fazia,
Os desejos femininos eram maiores pela vaidade e ganância do que pela lascívia.

Ao adentrar o baile confiantemente passava por entre as suas maiores concorrentes,
Até a substituta de sua mãe e suas irmãs emprestadas não estavam crentes!
Tamanha beleza e charme sobrenatural não havia como mulher alguma disputar!
Parecia magia de fadas, e tal beleza era impossível a alguém sequer tocar!
Exceto aquele escolhido e estupefato príncipe que paralizava ao olhá-la.
E naquele momento a música parava enquanto seu olhar dançava com o dela.
E após se abraçarem, os músicos pareciam inspirados pelos anjos a tocar
Enebriando as pessoas em melodias que alma humana um dia chegara a ouvir!

As mãos do príncipe tocavam a mais sedosa roupa e pele que ele jamais imaginara são.
E o olhar penetrante daquela dama percorria-lhe dos olhos à garganta e ao coração.
Tanto estava em total êxtase que não sabia se a conduzia, ou ela a ele, ou uma misteriosa mão invisivel.
A dama sorria em deleite total, observava uma platéia de estúpida massa imóvel.
Sentia naqueles minutos o poder do mundo em suas mãos, o controle da sedução total!
Tal que ninguém percebia que naquela sinistra e irresistível canção logo pronunciaria uma decisão fatal.
O tempo passara mais do que desapercebido e o prazer daquele momento único era impossível de resistir.
E aquele casal dançante, o único capaz de se mexer naquela inebriante atmosfera, inesperademente teve que se partir.

E em tal pressa e desesperada carreira a donzela deixara para trás um sapato de cristal no chão,
enquanto suas roupas pareciam transformar-se em meio a lágrimas que caiam no salão.
Ninguém conseguia entender o que aconteceu mas sentiam-se como se refeitas de um vinho forte.
Enquanto a misteriosa dama, corria em tal ritmo que as doze badaladas findas ainda se ouviam ao norte.
Mas sabia ela, que se ela não chegasse antes em casa, a única coisa que poderia contar seria a sorte.

E no outro dia, tudo parecia normal. Ela se via como antes daquela misteriosa noite.
Um triste destino a servir a madrasta e duas irmãs preguiçosas, em trabalho forte.
Tarefas desprezíveis, com humilhações tais e hoje ainda maiores do que antes
porque sabiam que ela estivera no baile, mas sua presença de nada fora importante.


E parecia que tudo na verdade fora um sonho, onde ela de certa forma a sorde grande tirara.
Teve um momento inesquecivel mesmo sendo sonho, e nada por ele pagara.
Mas aquele demônio de cinzas e chamas a assustara, e ela por ele ainda receava.
E por um momento ouviu o bater da porta. E ouvira aquela voz que sabia: era o homem que amava!
E logo pôs-se a correr, em disparada tão grande quanto os ritmos do coração.
Mas logo uma paralisia horripilante enregelava corpo, pés e mão.

Logo ouviu a porta do seu quarto fechar-se em estrondoso som sem nada poder fazer,
Noutro momento as trevas tomavam todos os espaços, e só via um sorriso em chamas aparecer!
A madrasta e as filhas logo correram a atender aquela voz que chamava do lado de fora.
Era o príncipe que procurava o pé que naquele magnifico sapato estivera e tão abruptamente foi-se embora.
Logo tão excitadas ficaram mãe e filhas que mal percebiam que seus pés eram imensos demais
E o principe enfadado de tentativas obviamente inuteis de encaixar o sapato em pés tais,
Observava algo estranho na parte de cima das escadas que levavam ao segundo andar da casa.
Via um corredor escuro em trevas irreais, e saindo pelas frestas de uma porta luz em cor de brasa!

Logo chamou dois guardas e pediu para que de imediato subissem, averiguar misterioso efeito,
E mal subiram, a porta se abriu e podiam ver que uma donzela surgira de maravilhoso jeito!
De tal forma surpreenderam-se que tropeçaram ao largo, dando espaço para que com seu passos voluptuosos,
Essa impressionante dama descesse sedutoramente as escadarias da casa, desafiando o príncipe em olhos desejosos
E mal notando o rosto apavorado da madrasta e suas irmãs, que percebiam chamas no olhar,
E estranho clima contaminava o ambiente, como se as trevas na luz pudesse caminhar.

E esta dama chegava ao príncipe com um sorriso casto e singelo mas provocante,
E paradoxalmente aterrorizava os sentidos dos outros presentes naquele instante.
Mas o príncipe parecia controlado, e largara o sapato, que caia no chão.
E a dama o colocava em seus pés, fazendo uma perfeita combinação.
E um abraço logo era dado dele nela, e aquela magia parecia ter um belíssimo final
Não fosse um dos soldados notar, que ela sombra não mais mostrava, como um fantasma do mal.

[Uma tentativa de dar um ar sombrio ao conto de fadas da "gata borralheira"]

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